Ciclo
da borracha
O ciclo da borracha
foi um momento importante da história econômica e social do Brasil, relacionado com a extração e comercialização
da borracha. Teve o seu centro
na região amazônica, e proporcionou
expansão da colonização, atração de riqueza, transformações culturais e
sociais, e grande impulso ao crescimento de Manaus, Porto Velho e Belém, até hoje capitais e
maiores centros de seus respectivos estados, Amazonas, Rondônia e Pará. No mesmo período, foi
criado o Território Federal do Acre, atual Estado do Acre, cuja área foi adquirida da Bolívia, por
meio de compra no valor de 2 milhões de libras esterlinas, em 1903. O ciclo da
borracha viveu seu auge entre 1879 e 1912, tendo depois experimentado uma sobrevida
entre 1942 e 1945, durante a II Guerra Mundial (1939-1945).
Linhas gerais
1
Região da
Amazônia, palco do ciclo da borracha. É visível parte do Brasil e da Bolívia, além dos rios
Madeira, Mamoré e Guaporé, perto dos quais construiu-se a Estrada de Ferro Madeira Mamoré.
O naturalista francês Charles Marie la Condamine ficou muito interessado
quando tomou conhecimento da pegajosa e espessa seiva com a qual os índios da
Amazônia, no século XVIII, confeccionavam objetos. Assim relatou sua descoberta
na Academia de Ciências da França, em 1774: "Os índios fabricam garrafas,
botas e bolas ocas, que se achatam quando apertadas, mas que tornam a sua
primitiva forma desde que livres". Ali foi dado o primeiro passo para o
advento do Ciclo-da-Borracha.
A primeira fábrica de produtos de borracha (ligas elásticas e
suspensórios) surgiu na França,
em Paris, no ano de 1803. Contudo, o material ainda apresentava
algumas desvantagens: à temperatura ambiente, a goma mostrava-se pegajosa. Com
o aumento da temperatura, a goma ficava ainda mais mole e pegajosa, ao passo
que a diminuição da temperatura era acompanhada do endurecimento e rigidez da
borracha.
Foram os índios
centro-americanos os primeiros a descobrir e fazer uso das
propriedades singulares da borracha natural. Entretanto, foi na floresta
amazônica que de fato se desenvolveu a atividade da extração da
borracha, a partir da seringa ou
seringueira (Hevea brasiliensis), uma árvore que pertence à
família das Euphorbiaceae,
também conhecida como árvore da fortuna.
Do caule da seringueira é extraído um líquido branco, chamado látex, em cuja composição ocorre, em média, 35% de hidrocarbonetos, destacando-se o 2-metil-buta-1,3-dieno (C5H8), comercialmente conhecido como isopreno, o monômero da borracha.
O látex é uma substância praticamente neutra, com pH 7,0 a 7,2. Mas, quando exposta ao ar por um
período de 12 a 24 horas, o pH cai para 5,0 e sofre coagulação espontânea,
formando o polímero que é a borracha,
representada por (C5H8)n, onde n é da
ordem de 10.000 e apresenta massa molecular média de
600 000 a 950 000 g/mol.
A borracha, assim obtida, possui desvantagens. Por exemplo, a exposição
ao ar provoca a mistura com outros materiais (detritos diversos), o que a torna
perecível e putrefável, bem como pegajosa devido à influência da temperatura.
Através de um tratamento industrial, eliminam-se do coágulo as impurezas e
submete-se a borracha resultante a um processo denominado vulcanização, resultando
a eliminação das propriedades indesejáveis. Torna-se assim imperecível,
resistente a solventes e a variações de
temperatura, adquirindo excelentes propriedades mecânicas e perdendo o carácter
pegajoso.
O primeiro ciclo da borracha - 1879/1912
Durante os primeiros quatro séculos e meio do descobrimento, como não
foram encontradas riquezas de ouro ou minerais preciosos na Amazônia, as
populações da hiléia brasileira viviam
praticamente em isolamento, porque nem a coroa portuguesa e,
posteriormente, nem o império
brasileiro conseguiram concretizar ações governamentais que
incentivassem o progresso
na região. Vivendo do extrativismo vegetal, a economia regional se desenvolveu
por ciclos (Drogas do Sertão), acompanhando o interesse do mercado nos diversos
recursos naturais da região. Para extração da borracha neste período, acontece
uma migração de nordestinos, pricipalmente do Ceará, pois o estado sofria
as consequências das secas do final do século XIX.
Borracha: lucro certo
Belém
ficou conhecida como Paris n'América no Ciclo da Borracha
O desenvolvimento tecnológico e a Revolução
Industrial, na Europa,
foram o estopim que fizeram da borracha natural, até então um produto exclusivo
da Amazônia, um produto muito procurado e valorizado, gerando lucros e
dividendos a quem quer que se aventurasse neste comércio.
Desde o início da segunda metade do século XIX, a borracha
passou a exercer forte atração sobre empreendedores visionários. A atividade
extrativista do látex na Amazônia revelou-se de imediato muito lucrativa. A
borracha natural logo conquistou um lugar de destaque nas indústrias da Europa
e da América
do Norte, alcançando elevado preço. Isto fez com que diversas
pessoas viessem ao Brasil na intenção de conhecer a seringueira e os métodos e
processos de extração, a fim de tentar também lucrar de alguma forma com esta
riqueza.
A partir da extração da borracha surgiram várias cidades e povoados,
depois também transformados em cidades. Belém e Manaus, que já existiam,
passaram então por importante transformação e urbanização. Manaus foi a
primeira cidade brasileira a ser urbanizada e a segunda a
possuir energia elétrica - a primeira foi Campos
dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.
Projetos de uma ferrovia para escoar a produção da
borracha
O ciclo
da borracha justificou a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré
A idéia de construir uma ferrovia nas margens dos rios Madeira e Mamoré surgiu na Bolívia,
em 1846. Como o país não tinha
como escoar a produção de borracha por seu território, era necessário criar
alguma alternativa que possibilitasse exportar a borracha através
do Oceano
Atlântico.
A idéia inicial optava pela via da navegação fluvial, subindo o rio
Mamoré em território boliviano e depois pelo rio Madeira, no Brasil. Mas o
percurso fluvial tinha grandes obstáculos: vinte cachoeiras impediam a
navegação. E foi aí que cogitou-se a construção de uma estrada de ferro que
cobrisse por terra o trecho problemático.
Em 1867, no Brasil, também
visando encontrar algum meio que favorecesse o transporte
da borracha, os engenheiros
José e Francisco Keller organizaram uma grande expedição, explorando a região
das cachoeiras do rio Madeira
para delimitar o melhor traçado, visando também a instalação de uma ferrovia.
Embora a idéia da navegação fluvial fosse complicada, em 1869, o engenheiro estadunidense George Earl
Church obteve do governo da Bolívia a concessão para criar e explorar uma
empresa de navegação que ligasse os rios Mamoré e Madeira. Mas, não muito tempo
depois, vendo as dificuldades reais desta empreitada, os planos foram
definitivamente mudados para a construção de uma ferrovia.
As negociações avançam e, ainda em 1870, o mesmo Church recebe do governo
brasileiro a permissão para construir então uma ferrovia ao longo das
cachoeiras do Rio Madeira.
A Questão do Acre
Mas o exagero do extrativismo descontrolado da borracha estava em vias
de provocar um conflito internacional. Os trabalhadores brasileiros cada vez
mais adentravam nas florestas do território da Bolívia em busca de novas
seringueiras para extrair o precioso látex, gerando conflitos e lutas por
questões fronteiriças no final do século XIX, que exigiram inclusive a presença
do exército, liderado pelo militar José
Plácido de Castro.
A república
brasileira, recém proclamada, tirava o máximo proveito das
riquezas obtidas com a venda da borracha, mas a Questão do Acre (como
estavam sendo conhecidos os conflitos fronteiriços por conta do extrativismo da
borracha) preocupava.
Foi então a providencial e inteligente intervenção do diplomata Barão
do Rio Branco e do embaixador Assis Brasil, em parte financiados pelos barões da
borracha, que culminou na assinatura do Tratado de Petrópolis, assinado 17 de novembro de 1903 no governo do presidente Rodrigues Alves. Este tratado pôs fim à contenda com a
Bolívia, garantindo o efetivo controle e a posse das terras e florestas do Acre por parte do Brasil.
O Brasil recebeu a posse definitiva da região em troca de terras de Mato Grosso, do pagamento
de 2 milhões de libras esterlinas e do compromisso de construir uma ferrovia
que superasse o trecho encachoeirado do rio Madeira e que possibilitasse o
acesso das mercadorias bolivianas (sendo a borracha o principal), aos portos
brasileiros do Atlântico (inicialmente Belém do Pará, na foz do rio Amazonas).
Devido a este episódio histórico, resolvido pacificamente, a capital do
Acre recebeu o nome de Rio Branco
e dois municípios deste Estado receberam nomes de outras duas importantes
personagens: Assis
Brasil e Plácido
de Castro.
Madeira-Mamoré, finalmente pronta. Mas para quê?
A ferrovia
Madeira-Mamoré, também conhecida como Ferrovia do Diabo por
ter causado a morte de cerca de seis mil trabalhadores (comenta a lenda que foi
um trabalhador morto para cada dormente fixado nos trilhos), foi encampada pelo
megaempresário estadunidense
Percival
Farquhar. A construção da ferrovia iniciou-se em 1907 durante o governo de Affonso Penna e foi um dos episódios mais significativos da
história da ocupação da Amazônia, revelando a clara tentativa de integrá-la ao
mercado mundial através da comercialização da borracha.
Em 30 de abril de 1912 foi inaugurado o último trecho da estrada
de ferro Madeira-Mamoré. Tal ocasião registra a chegada do primeiro comboio à
cidade de Guajará-Mirim,
fundada nessa mesma data.
Mas o destino da ferrovia que foi construída com o propósito principal
de escoar a borracha e outros produtos da região amazônica, tanto da Bolívia
quanto do Brasil, para os portos do Atlântico, e que dizimara milhares de
vidas, foi o pior possível.
Primeiro, porque o preço do látex caiu vertiginosamente no mercado mundial,
inviabilizando o comércio da borracha da Amazônia. Depois, devido ao fato de
que o transporte de outros produtos que poderia ser feito pela Madeira-Mamoré
foi deslocado para outras duas estradas de ferro (uma delas construída no Chile e outra na Argentina) e para o Canal do Panamá, que entrou
em atividade em 15 de
Agosto de 1914.
Alie-se a esta conjuntura o fator natureza: a própria floresta
amazônica, com seu alto índice de precipitação
pluviométrica, se encarregou de destruir trechos inteiros dos
trilhos, aterros e pontes, tomando de volta
para si grande parte do trajeto que o homem insistira em abrir para construir a
Madeira-Mamoré.
A ferrovia foi desativada parcialmente na década de 1930 e totalmente em 1972, ano em que foi inaugurada a Rodovia
Transamazônica (BR-230). Atualmente, de um total de 364 quilômetros
de extensão, restam apenas 7 quilômetros ativos, que são utilizados para fins turísticos.
A população rondoniense luta para que a tão sonhada revitalização da
EFMM saia do papel, mas até à data 1º de dezembro de 2006 a obra ainda nem
havia começado. A falta de interesse dos orgãos públicos, em especial das
prefeituras, e a burocracia impedem o projeto.
Apogeu, requinte e luxo
Os novos
ricos de Manaus tornaram a cidade a capital mundial da venda de diamantes.
Belém, capital do Estado do
Pará, assim como Manaus,
capital do Estado do Amazonas,
eram na época consideradas cidades brasileiras das mais desenvolvidas e umas
das mais prósperas do mundo, principalmente Belém, não só pela sua posição
estratégica - quase no litoral -, mas também porque sediava um maior número de
residências de seringalistas, casas bancárias e outras importantes instituições
que Manaus. Ambas possuíam luz
elétrica e sistema de água encanada e esgotos. Viveram seu apogeu entre 1890 e 1920, gozando de tecnologias que outras
cidades do sul e sudeste do Brasil ainda não possuíam, tais como bondes elétricos, avenidas
construídas sobre pântanos
aterrados, além de edifícios
imponentes e luxuosos, como o requintado Teatro Amazonas, o Palácio
do Governo, o Mercado Municipal e o prédio da Alfândega, no caso de Manaus, e o
Mercado
de São Brás, Mercado Francisco Bolonha, Teatro da Paz, Palácio
Antônio Lemos, corredores de mangueiras e diversos palacetes
residenciais no caso de Belém,
construídos em boa parte pelo intendente Antônio Lemos.
Teatro Amazonas em Manaus, um dos luxuosos edifícios
construídos com as fortunas da borracha.
O Cinema Olympia, a mais antiga casa de exibição de filmes de Belém,
considerada uma das mais luxuosas e modernas de seu tempo, foi inaugurado em 21 de abril de 1912 no auge do cinema mudo internacional,
pelos proprietários Antonio Martins e Carlos Augusto Teixeira, à Praça da
República , esquina da Rua Macapá.
A construção desse espaço de cultura completava o quadrado, em cujos
vértices situavam-se o Palace, Grande Hotel e o Teatro da Paz, local de Reunião
da elite de Belém que, elegantemente trajados à moda parisiense assistiam a
inauguração ao som de acordes musicais, num ambiente esplendoroso, de bom gosto
e de grande animação. A abertura teve como pano de fundo a Belle Époque, ao final do
apogeu econômico propiciado pelo período da borracha e o final da intendência
de Antônio Lemos, grande transformador urbanista da cidade.
Teatro da Paz em Belém, um dos símbolos do
ciclo da borracha.
A influência européia logo se fez notar em Manaus e Belém, na arquitetura da construções
e no modo de viver, fazendo do século XIX a melhor fase
econômica vivida por ambas cidades. A Amazônia era responsável, nessa época,
por quase 40% de toda a exportação brasileira. Os novos ricos de Manaus
tornaram a cidade a capital mundial da venda de diamantes. Graças à
borracha, a renda
per capita de Manaus era duas vezes superior à da região produtora
de café (São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito
Santo).
Moeda da borracha: libra
esterlina: como forma de pagamento pela exportação da borracha, os
seringalistas recebiam em libra esterlina (£), moeda do Reino Unido, que inclusive
era a mesma que circulava em Manaus e Belém durante a Belle Époque amazônica.
O fim do monopólio amazônico da borracha
Igreja de
São Sebastião (Manaus) que se situa em frente ao Teatro Amazonas, que, com o
fim do ciclo da borracha, teve uma de suas torres, o segundo sineiro, suprimida
em virtude da falta de dinheiro para trazê-la da Europa.
A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, terminada em 1912, já chegava tarde.
A Amazônia já estava perdendo a primazia do monopólio de produção da
borracha porque os seringais plantados pelos ingleses na Malásia, no Ceilão e na África tropical, com sementes oriundas da
própria Amazônia, passaram a produzir látex com maior eficiência e
produtividade. Conseqüentemente, com custos menores e preço final menor, o que
os fez assumir o controle do comércio mundial do produto.
A borracha natural da Amazônia passou a ter um preço proibitivo no
mercado mundial, tendo como reflexo imediato a estagnação da economia regional.
A crise da borracha tornou-se ainda maior porque a falta de visão empresarial e
governamental resultou na ausência de alternativas que possibilitassem o
desenvolvimento regional, tendo como conseqüência imediata a estagnação também
das cidades. A falta não pode ser atribuída apenas aos empresários tidos como barões
da borracha e à classe dominante em geral, mas também ao governo e
políticos que não incentivaram a criação de projetos administrativos que
gerassem um planejamento e um desenvolvimento sustentado da atividade de
extração do látex.
Por sinal, desde a época do Governo Imperial que eram descartados
projetos de incentivo à produção ou proteção dessa que era, no final do século
XIX, a maior fonte de renda do Brasil, superando o decadente Ciclo do Café. Tal
inércia se devia ao Governo Monárquico, que era atrelado ao interesse econômico
dos barões do café, que direcionava todos os esforços governamentais para
manter a riqueza do sudeste brasileiro, mais próxima e influente ao poder do
que os ricos barões da borracha, que preferiam viagens de negócios
internacionais do que visitas políticas ao Rei.
Com a República, pouca coisa mudou. O baixo peso político era
contrastante com o poder financeiro do riquíssimo Norte. O Poder, concentrado
no Sudeste brasileiro, passou a ser controlado pelos interesses econômicos dos
cafeicutores e dos pecuaristas, resultando na política do café-com-leite, e excluindo os interesses dos
barões da borracha (que também, pouco se movimentavam politicamente para serem
incluídos, preferindo ir gastar seu dinheiro nos cassinos europeus do que
investir em "lobbies" por acharem que o ciclo da borracha nunca
acabaria).
A Malásia, que investiu no
plantio de seringueiras e em técnicas de extração do látex, foi a principal
responsável pela queda do monopólio
brasileiro.
Embora restando a ferrovia Madeira-Mamoré e as cidades de Porto Velho e Guajará-Mirim como herança
deste apogeu, a crise econômica provocada pelo término do ciclo da borracha
deixou marcas profundas em toda a região amazônica: queda na receita dos
Estados, alto índice de desemprego,
êxodo rural e urbano,
sobrados e mansões completamente abandonados, e, principalmente, completa falta
de expectativas em relação ao futuro para os que insistiram em permanecer na
região.
Os trabalhadores dos seringais, agora desprovidos da renda da extração,
fixaram-se na periferia de Manaus em
busca de melhores condições de vida. Por volta de 1920, começaram a formar o que seria chamado
de cidade flutuante, que se consolidaria até a década de 1967 .
O governo central do Brasil até criou um órgão com o objetivo de
contornar a crise, chamado Superintendência de Defesa da Borracha, mas esta
superintendência foi ineficiente e não conseguiu garantir ganhos reais, sendo,
por esta razão, desativada não muito tempo depois de sua criação.
A partir do final da década de 1920, Henry Ford, o pioneiro da
indústria americana de automóveis,
empreendeu o cultivo de seringais na Amazônia criando 1927 a cidade de Fordlândia e posteriormente
(1934) Belterra, no Oeste do Pará, especialmente para
este fim, com técnicas de cultivo e cuidados especiais, mas a iniciativa não
logrou êxito já que a plantação foi atacada por uma praga na folhagem conhecida
como mal-de-folhas, causada pelo fungo Microcyclus ulei.
O segundo ciclo da borracha - 1942/1945
A Amazônia viveria outra vez o ciclo da borracha durante a Segunda
Guerra Mundial, embora por pouco tempo. Como forças japonesas dominaram
militarmente o Pacífico
Sul nos primeiros meses de 1942 e invadiram também a Malásia, o controle
dos seringais passou a estar nas mãos dos nipônicos, o que culminou na queda de
97% da produção da borracha asiática.
Para o Brasil, além da grande movimentação realizada pela exportação da borracha, os investimentos
realizados os Estados
Unidos chegaram, de certa forma, a manter nossa economia estável e
até - em alguns momentos - em alta durante o período em que se desenrolava o
conflito. O país havia encontrado a química milagrosa da guerra por conta da
abertura rumo às atividades rurais e extrativistas, no qual permitia
perspectivas de propulsão e crescimento de nossa economia. Parte desse ideal
surgia da necessidade de viver com os próprios recursos, a fim de estimular o
crescimento da riqueza agropecuária
nacional e de produtos que poderiam ter desenvolvido suas exportações.
Naquele período já havia uma grande oportunidade de bons negócios entre
Brasil e Estados Unidos: o Conselho Federal de Comércio Exterior, com sede no
Rio de Janeiro, havia emitido uma circular aos governos e às associações
comerciais e industriais dos Estados comunicando que tinham recebido um
telegrama da Embaixada do Brasil em Washington, o qual
informava que o Departamento de Guerra dos Estados Unidos iniciava algumas
compras para armazenamento, no valor de 100 milhões de dólares em mercadorias
necessárias à defesa nacional, tais como: bauxita, manganês, mica, cobre, borracha, lã, cristal de rocha,
etc.
Isto resultaria na implantação de mais alguns elementos, inclusive de
infra-estrutura, apenas em Belém,
desta vez por parte dos Estados
Unidos. A exemplo disso, temos o Banco de Crédito da Borracha, atual Banco
da Amazônia; o Grande Hotel, luxuoso hotel construído em
Belém em apenas 3 anos, onde hoje é o Hilton Hotel; o aeroporto de Belém; a
base aérea de Belém; entre outros.
A Batalha da
Borracha
Com o alistamento de nordestinos, Getúlio Vargas minimizou o
problema da seca do nordeste e ao mesmo tempo deu novo ânimo na colonização da Amazônia.
Na ânsia de encontrar um caminho que resolvesse esse impasse e, mesmo,
para suprir as Forças Aliadas da borracha
então necessária para o material bélico, o governo brasileiro fez um acordo, em
maio de 1941, com o governo dos
Estados Unidos (Acordos
de Washington), que desencadeou uma operação em larga escala de
extração de látex na Amazônia - operação que ficou conhecida como a Batalha da
Borracha.
Como os seringais estavam abandonados e mais de 35 mil trabalhadores
permaneciam na região, o grande desafio de Getúlio Vargas, então
presidente do Brasil, era aumentar a produção anual de látex de 18 mil para 45
mil toneladas, como previa o acordo. Para isso seria necessária a força braçal
de 100 mil homens.
O alistamento compulsório em 1943 era
feito pelo Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia
(SEMTA), com sede no
nordeste, em Fortaleza,
criado pelo então Estado
Novo. A escolha do nordeste como sede deveu-se essencialmente como
resposta a uma seca devastadora na região
e à crise sem precedentes que os camponeses da região enfrentavam.
Além do SEMTA, foram criados pelo governo nesta época, visando a
dar suporte à Batalha da borracha, a Superintendência para o
Abastecimento do Vale da Amazônia (Sava), o Serviço Especial de Saúde
Pública (Sesp) e o Serviço de Navegação da Amazônia e de Administração
do Porto do Pará (Snapp). Criou-se ainda a instituição chamada Banco de
Crédito da Borracha, que seria transformada, em 1950, no Banco de Crédito da Amazônia.
O órgão internacional Rubber Development Corporation (RDC),
financiado com capital dos industriais estadunidenses, custeava as despesas do
deslocamento dos migrantes
(conhecidos à época como brabos). O governo dos Estados Unidos pagava ao
governo brasileiro cem dólares por cada trabalhador entregue na Amazônia.
O governo
dos Estados Unidos pagava ao governo brasileiro cem dólares por cada
trabalhador entregue na Amazônia
Milhares de trabalhadores de várias regiões do Brasil foram
compulsoriamente levados à escravidão por dívida e à morte por doenças para as quais
não possuíam imunidade. Só do nordeste
foram para a Amazônia 54 mil trabalhadores, sendo 30 mil deles apenas do Ceará. Esses novos
seringueiros receberam a alcunha
de Soldados
da Borracha, numa alusão clara de que o papel do seringueiro em
suprir as fábricas nos EUA com borracha era tão importante quanto o de combater
o regime nazista com armas.
Manaus tinha, em 1849, cinco mil habitantes,
e, em meio século, cresceu para 70 mil. Novamente a região experimentou a
sensação de riqueza e de pujança. O dinheiro voltou a circular
em Manaus, em Belém, em cidades e povoados vizinhos e a economia regional
fortaleceu-se.
O kit básico
Cada migrante assinava um contrato com o SEMTA que previa um pequeno salário para o trabalhador
durante a viagem até a Amazônia. Após a chegada, receberiam uma remuneração de
60% de todo capital que fosse obtido com a borracha.
O kit básico dos voluntários, ao assinar o contrato, consistia em:
- uma
calça de mescla azul
- uma
blusa de morim branco
- um
chapéu de palha
- um par
de alpercatas de rabicho
- uma
caneca de flandre
- um
prato fundo
- um
talher
- uma
rede
- uma
carteira de cigarros Colomy
- um saco de estopa ou bornal
- uma poronga
- tabaco
Após recrutados, os voluntários ficavam acampados em alojamentos
construídos para este fim, sob rígida vigilância militar, para depois seguirem
até à Amazônia, numa viagem que podia demorar de 2 a 3 meses.
Um caminho
sem volta
Mosquito,
elemento transmissor da malária e da febre amarela, doenças que causaram muitas
mortes aos seringueiros
Entretanto, para muitos trabalhadores, este foi um caminho sem volta.
Cerca de 30 mil seringueiros morreram abandonados na Amazônia, depois de terem
exaurido suas forças extraindo o ouro branco. Morriam de malária, febre amarela, hepatite e atacados por
animais como onças,
serpentes e escorpiões. O governo
brasileiro também não cumpriu a promessa de reconduzir os Soldados
da Borracha de volta à sua terra no final da guerra, reconhecidos
como heróis e com aposentadoria equiparada à
dos militares. Calcula-se que
conseguiram voltar ao seu local de origem (a duras penas e por seus próprios
meios) cerca de seis mil homens.
Mas quando chegavam tornavam-se escravos por dívida dos coronéis
seringueiros e morriam em consequência das doenças, da fome ou assassinados
quando resistiam lembrando as regras do contrato com o governo.
Apontamentos finais
Os finais abruptos do primeiro e do segundo ciclo da borracha
demonstraram a incapacidade empresarial e falta de visão da classe dominante e dos
políticos da região. No primeiro, além da extrema confiança dos barões da
borracha na perpetuação daquele ciclo, houve os interesses dos cafeicutores,
que influenciavam o Governo Monárquico a proteger e fomentar apenas a sua
produção (e, consequentemente, seus lucros), e culminando com a influência no
Governo Republicano, comandado pela política do café-com-leite, que pouco fez pela borracha da
Amazônia. O final da Segunda Guerra conduziu, pela segunda vez, à perda da
chance de fazer vingar esta atividade econômica, posto que o Governo Getulista
fomentara o retorno à borracha apenas por interesses externos dos países
aliados - notadamente os Estados Unidos. Não se fomentou qualquer plano de
efetivo desenvolvimento sustentado na região, o que gerou reflexos imediatos:
assim que terminou a Segunda Guerra Mundial, tanto as economias de vencedores
como de vencidos se reorganizaram na Europa e na Ásia, fazendo cessar
novamente as atividades nos velhos e ineficientes seringais da Amazônia.´
Belle
Époque
Paris era
um grande centro, não só cultural, mas também de diversão.
ABelle Époque' (bela época em francês) foi um período de
cultura cosmopolita na história
da Europa que começou no final do século XIX (1871) e durou até a eclosão da Primeira
Guerra Mundial em 1914. A
expressão também designa o clima intelectual e artístico do período em questão.
Foi uma época marcada por profundas transformações culturais que se traduziram
em novos modos de pensar e viver o quotidiano.
A Belle Époque foi considerada uma era de ouro da beleza,
inovação e paz entre os países europeus.
Novas invenções tornavam a vida mais fácil em todos os níveis sociais, e a cena
cultural estava em efervescência: cabarés, o cancan, e o cinema haviam nascido, e a arte tomava novas formas com o Impressionismo e a Art Nouveau. A arte e a arquitetura inspiradas no
estilo dessa era, em outras nações, são chamadas algumas vezes de estilo
"Belle Époque". Além disso "Belle Epóque" foi representada
por uma cultura urbana de divertimento incentivada pelo desenvolvimento dos
meios de comunicação e transporte , que aproximou ainda mais as principais
cidades do planeta.
Sociedade e progresso materiais
Inovações tecnológicas como o telefone, o telégrafo sem fio, o cinema, a bicicleta, o automóvel, o avião, inspiravam novas
percepções da realidade. Com seus cafés-concertos, balés, óperas, livrarias, teatros,
boulevards e alta
costura. Paris, a Cidade Luz, era
considerada o centro produtor e exportador da cultura mundial. A cultura boêmia
imortalizada nas páginas do romance de Henri Murger, Scènes de
la vie de bohème (1848), era um referencial
de vida para os intelectuais brasileiros, leitores ávidos de Baudelaire,
Rimbaud, Verlaine, Zola, Anatole France e Balzac.
Ir a Paris ao menos uma vez por ano era quase uma obrigação entre as elites,
pois garantia o vínculo com a atualidade do mundo.
A Belle Époque, foi uma época onde ocorreram várias mudanças no mundo da
arte na Europa, fazendo com que teatros, exposições de telas, cinemas,
entrassem no quotidiano dos burgueses. E apenas eles tinham acesso a este mundo
da arte. A Belle Époque americana é, no entanto, instalada rapidamente no país,
por meio de uma breve industrialização que começa em meados de 1875, e depois
ainda sobrevive até 1930, sendo aos poucos minada por novos movimentos
agrícolas.
Arte e literatura
O estilo chamado art nouveau ("arte nova" em português)
foi típico da Belle Époque. Esta corrente artística surgiu nos finais do
séc. XIX, em reacção ao emprego abusivo na arte de motivos clássicos ou
tradicionais. Em vez de se basear nos sólidos modernos da arte clássica, a art
nouveau valorizava os ornamentos, as cores vivas e as curvas sinuosas
baseadas nas formas elegantes das plantas dos animais e das mulheres. É uma
arte essencialmente decorativa sendo as principais obras desse estilo fachadas
de edifícios, objetos de decoração (móveis, portões, vasos), jóias, vitrais e
azulejos. Um dos pintores mais conhecido da Arte Nova é Alfonse Mucha.
O Ford T, um carro "bom
e barulhento", como diziam seus contemporâneos, grande símbolo
progressista da Belle Époque.
Tendo surgido, acredita-se, de uma série de influências na arte, também
na literatura, considera-se que entre os seus precursores estão William Morris e o
movimento Arts and
Crafts, o movimento Pré-Rafaelita, o Historicismo do Romantismo do
Barroco, do Revivalismo Gótico e Celta, William Blake e Walter Crane, as
gravuras Japonesas , Oscar Wilde,
o ideal wagneriano de Gesamtkunstwerk, de Aubrey Beardsley, a poesia simbolista de Mallarmé e das pinturas de Toulouse-Lautrec, Munch, Whistler, Nabis e Seurat.
Em literatura, considera-se que um dos principais percursores do estilo
Art Nouveau Revivalismo
Celta, especialmente na Inglaterra, Escócia, Irlanda e Escandinávia,
o qual teria dado, voltando-se para as "épocas áureas" de cada país.
Apesar dos motivos medievais de cavalaria usados por esta tendência literária,
que contribui para a Art Nouveau em outros gêneros artísticos, havia nesta
escola um desejo da libertação do antigo e uma certa procura do novo, que
refletiu-se em movimentos como o Novo Paganismo ou o Novo Hedonismo enquanto que O
retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde
"caracterizava-se pela Nova Voluptuosidade"[1].
A cultura do divertimento
No final do século XIX
o êxodo rural, o
desenvolvimento das comunicações e a eletricidade, aliadas ao crescimento
urbano propiciaram o surgimento da cultura do divertimento. Essa cultura ganhou
status social na burguesia através dos cabarés, onde era possível encontrar a
fusão dos elementos da cultura erudita com os elementos das classes baixas.
A indústria do divertimento
A indústria do divertimento (parque de diversão e cinema) foi possível
devido ao desenvolvimento da eletricidade e a diminuição da jornada de
trabalho, fazendo com que os operários tivessem mais horas livres para o lazer.
Os parques e os cinemas transformaram-se em divertimento de massa, porque o
ingresso era barato e esses divertimentos provocavam um desprendimento
momentâneo da realidade cotidiana das pessoas.
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