sábado, 8 de dezembro de 2012

PERERECA NÃO É LACÔNICA

A reação do deputado estadual José Megale (PSDB) à divulgação de informações sobre o seu suposto envolvimento nas fraudes da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) só deixa três alternativas: ou ele é muito burro, ou é muito arrogante, ou, ainda, as duas coisas.

Megale pareceu surpreso com essa divulgação justamente no momento em que tentava alçar voo à Presidência da Alepa, sacudida pelo maior escândalo de sua história, em decorrência de fraudes que podem ter lesado o erário em mais de R$ 200 milhões.

Ora, qualquer pessoa minimamente prudente, e que fosse suspeita de envolvimento nesse escândalo, teria pensado duas vezes antes de se candidatar à Presidência da Alepa.

No entanto, Megale foi em frente, sem nem mesmo pestanejar.

Ao que parece, por confiar no torniquete imposto à imprensa paraense pelo governador Simão Jatene, através do derrame de milhões e milhões em verbas de propaganda.

Quer dizer: o silêncio cúmplice da imprensa proporcionaria ao ilustre deputado o necessário “salvo-conduto” para que alcançasse tal posto, sem ter de explicar ao distinto público como foi possível que alcançasse tal posto, apesar das graves acusações que enfrenta.

É ou não é a cara da arrogância tucana no estado do Pará?

Ao que parece, a Vossa Excelência, assim como outros de seus colegas tucanos, não consegue entender que os tempos mudaram.

Nem mesmo todo o dinheiro do mundo derramado na imprensa tradicional consegue mais impedir o fluxo da informação.

Blogs e redes sociais estão entre os fenômenos mais importantes para a Democracia, em todos os tempos.

Daí a impossibilidade de chegar a bom termo a “missão” a que se propuseram Megale e os tucanos paraenses: varrer essas denúncias para debaixo do tapete.

Ao renunciar, na manhã de ontem, à candidatura à Presidência da Alepa, o ilustre deputado afirmou que o fazia em nome da decência, e não do “jogo político rasteiro”.

E, assim, errou novamente.

Não há nada de “rasteiro” na divulgação dessas informações.

Pelo contrário: o acesso a elas é um direito inalienável dos cidadãos.

Elas não têm a ver com as preferências pessoais de Megale, com a família dele, com nada, rigorosamente nada, que diga respeito à vida privada do ilustre deputado.

Dizem respeito é à utilização, supostamente criminosa, de recursos públicos.

Por isso, colocam de pronto um imperativo moral, do maior interesse para a coletividade.

Pouco importa se Megale é inocente ou culpado, pois isso só quem vai dizer é a Justiça – se o caso chegar à Justiça.

Mas quem carrega no costado acusações como essas, não pode ser candidato à Presidência de um Poder.

E, especialmente, do mesmíssimo Poder no qual tais crimes teriam sido cometidos.

Esse imperativo moral também coloca questões complicadíssimas ao nobre deputado e aos tucanos paraenses.

Quando estavam na oposição, os tucanos berravam até mesmo contra um copo de uísque que a ex-governadora Ana Júlia Carepa tomava em um bar, fora do horário de expediente, como se isso fizesse dela - ou de qualquer mulher - uma vagabunda.

No entanto, parecem ter achado “perfeitamente natural” a candidatura de Megale à Presidência da Alepa.

Assim como parecem ter considerado “perfeitamente natural” a nomeação de um delegado acusado de tortura, para o comando da polícia metropolitana; e a nomeação de Antonio Cláudio Fernandes Farias para o comando da área de Análise Criminal da Segup, apesar de ele responder a processo por peculato - no qual, aliás, acabou condenado, no mês passado, a cinco anos de reclusão.

No mínimo, essa contradição tucana demonstra uma séria incapacidade de separar o público do privado.

Daí, o “jogo rasteiro” – aí, sim – em se tratando dos adversários.

E daí, também, a grave tendência a minimizar os fatos realmente importantes, ou seja, que dizem respeito à coletividade, em se tratando daqueles que lhes são subservientes.

Outra questão complicada é a aparente inércia do cidadão e homem público José Megale, diante da demora do Ministério Público Estadual em analisar as acusações que pesam contra ele.

Megale diz que esteve no MP e colocou “à disposição” o seu sigilo bancário, quando as denúncias pipocaram pela vez na imprensa, em maio deste ano.

De lá pra cá, no entanto, essas informações simplesmente evaporaram do noticiário.

E o distinto público desconhece se o ilustre deputado tentou, ao menos, apressar o passo de cágado do MP.

Vejam bem: não se está a falar do seu Zé da Silva, lá do Tucunduba, sem acesso ao Procurador Geral de Justiça (PGJ), Antonio Barleta.

Deputado, líder do Governo na Alepa, Megale até poderia ter marcado uma reunião com o PGJ, para perguntar: “E aí, Barleta, esse negócio anda ou não anda?”.

Cidadão que afirma ter sido injustamente acusado, poderia ter chamado a imprensa, para denunciar: “me acusaram de uma coisa que eu não fiz e quero a chance de provar que sou inocente. Mas a denúncia tá parada lá no MP!”.

Poderia ter encaminhado ofícios e mais ofícios ao MP. Poderia ter tuitado ou postado alguma coisa no Facebook, cobrando agilidade nas investigações.

No entanto, assim como a imprensa, Megale preferiu o silêncio.

Nada mais compreensível: algumas das acusações que enfrenta são, de fato, difíceis de explicar.

É possível, sim, que Megale não soubesse que os cheques que assinava beneficiavam empresas da família de Daura Hage.

E que tenha homologado, sem saber, licitações fraudulentas.

Afinal, ele era apenas vice-presidente da Alepa e poderia muito bem não ter o “domínio do fato”.

No entanto, o mesmo não se pode dizer em relação às irregularidades que envolvem a empresa MAC Martins.

Megale sabia – e admite isso – que a empresa pertencia a um funcionário de seu gabinete.

E mesmo assim, segundo as investigações do promotor de Justiça Arnaldo Azevedo, que encaminhou o caso ao PGJ, foi o próprio Megale a solicitar os serviços prestados à Alepa pela MAC Martins.

Sempre com dispensa de licitação.

E sempre com valores próximos de R$ 8 mil, o que pode indicar fracionamento de despesa, para escapar ao processo licitatório.


Megale afirma que não sabia que era proibido, ilegal, contratar serviços, para a Alepa, de uma empresa pertencente a um funcionário de seu gabinete parlamentar– portanto, funcionário da mesmíssima Alepa.

E aí o osso fica duro de roer; o açaí, dificílimo de amassar.

Ora, novamente não estamos a falar do Zé da Silva, lá do Tucunduba, mas, de um LE-GIS-LA-DOR.

Como, então, o nobre deputado poderia não saber que isso era irregular?

Será que o cidadão, o deputado, o LE-GIS-LA-DOR José Megale não leu nem mesmo a Constituição, ao menos no que tange à MORALIDADE e à IMPESSOALIDADE da administração pública?

Qual, afinal, o tamanho da “elasticidade moral” do cidadão, da liderança política José Megale, que nem sequer estranhou uma transação assim?

Ontem, ao renunciar à candidatura à Presidência da Alepa, Megale criticou a divulgação das denúncias contra ele.

Praguejou, especialmente, contra o jornal Diário do Pará, que publicou reportagem, no domingo, sobre o mistério que cercava as investigações do Caso Megale, pelo MP (tema de reportagem exclusiva da Perereca, quatro dias antes).

O deputado teria dito, na Alepa, que não permitirá que um “grupo empresarial” venha a “pautar” as eleições para o comando da Casa.

E que não considera “ético” que um jornal “advogue” em favor de um partido em tal eleição.

Porque isso, a seu ver, “contaminaria” o processo eleitoral, “ferindo” a autonomia da Alepa.

No entanto, na noite de ontem, o governador Simão Jatene, o chefe do Poder Executivo, comandou pessoalmente a reunião de deputados que escolheu o novo candidato da base aliada à Presidência da Alepa, em substituição a Megale (será Márcio Miranda, do DEM) e definiu estratégias para interferir até mesmo na data da eleição.

Não, caro leitor, não foi um preposto de Jatene quem comandou a reunião, o que já seria grave: foi o próprio governador.

E hoje os jornais noticiam, como se fosse “perfeitamente natural”, essa interferência descarada, desavergonhada, inconstitucional, antiética do chefe do Poder Executivo nas eleições para o comando da Assembleia Legislativa do Estado do Pará.

Ou seja: o que antes se fazia na sombra e na escuridão, por irregular e imoral, Jatene faz às escâncaras, também sob o silêncio cúmplice da imprensa e de todas as instituições.

E, certamente, nem Megale nem os tucanos dirão coisíssima alguma sobre essa contaminação do processo eleitoral, que pisoteia a autonomia do Legislativo paraense.

Mas, pensando bem, nem precisa que digam coisa alguma.

Em certas ocasiões, os silêncios são pra lá de eloquentes.

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